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Ser mulher no Peru

mulher peruana

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8 de março. Dia Internacional da Mulher. Hoje recebemos flores, chocolates, mensagens por whatsapp da tia, do paquera, daquele grupo de amigas e até do dentista. É tema de todas as redes sociais que se inundam de fotinhos, vídeos, piadas e discussões sobre gostar ou não da data.

Pensei muito em como fazer esta data valer a pena. Pensei muito em como eu poderia ajudar nesta luta tão real e válida que é ser mulher hoje. Resolvi então contar para vocês um pouco de como é ser mulher no Peru hoje.

Claro que muitos vão dizer que, para mim, pouco faz diferença já que cheguei aqui adulta, criada e em condição privilegiada. Mas não. “Ser mulher no Peru” é um assunto que permeia diariamente minha vida, minhas decisões, meu mundo, já que aqui pari 3 filhas mulheres. Sim, tenho três mulheres peruanas em casa, que estão crescendo e sendo criadas em Lima (mas, na boa, mesmo se não fosse isto. Sou mulher e isto me coloca em luta com todas as outras mulheres do mundo).

Peru é um país machista. Muito machista.

No Peru, uma adolescente pode ser espancada pelo pai se flagrada tendo sexo com o namorado. Aqui, a mulher que está em cárcere não tem direito a visitas conjugais. No sistema público de saúde, é proibido a entrega gratuita da pílula do dia seguinte para pacientes vítimas de estupro.

Algo mais absurdo? No Peru, se a mulher é largada pelo marido e não se divorciam, o homem pode refazer a vida e registrar todos os filhos da nova companheira. A mulher não. A lei indica que o filho desta mulher é legalmente do ex-marido (protegido pelo vinculo do matrimonio) e para que o pai biológico consiga registrá-lo, é necessário um longo e complexo processo legal.

De 10 mulheres peruanas, 6 são vitimas de violência psicológica e 2 são vitimas de violência física por parte de seu companheiro. 16% das pessoas (homens e mulheres) acham que a culpa é da própria mulher, sendo que 3,7% acham que elas MERECEM ser golpeadas e 3,8% NÃO veem problemas no homem forçar relações com suas parceiras.

As peruanas são trabalhadoras. Segundo o INEI (Instituto Nacional de Estatísticas e Informação), 95,4% das peruanas trabalham, a maioria em serviços. Em média, uma peruana ganha UM TERÇO A MENOS do que um peruano ganha, fazendo o mesmo serviço. Infelizmente, somente 36% das mulheres conseguem terminar a escola e pouco mais de 16% conseguem concluir uma faculdade. Isto num país onde as mulheres são 15.800.000, ou seja, 49,9% da população.

Claro que muitos dos dados que expus aqui atingem muito mais as classes menos favorecidas da sociedade, mas como a cultura do machismo entra na vida das minhas filhas?

A fama do colégio da minha filha é educar mulher para casar com homem rico. Minhas filhas tem cabelo curto, motivo suficiente para sempre me perguntarem se são meninos. Usar azul (mesmo que marinho) e tons “neutros” são também motivo. Não me esqueço uma vez de uma menina, que devia ter uns 5 anos, perguntar porque minha filha usava verde se era uma menina. Olivia devia ter um ano. O rosa e as princesas são praticamente obrigatórios na vida de uma menina peruana (também sinto isto no Brasil). Sou de uma época que panelinha tinha cor de panela, fogão tinha cor de fogão. Hoje o fogão é rosa, as panelas são rosas. Estou vendo a hora que as frutas vão vir todas em tons de rosa também. No ultimo aniversário, fui comprar potinhos de bolinhas de sabão e a vendedora me perguntou: menino ou menina? Desconhecia que bola de sabão tivesse cor…

O machismo aqui, como no Brasil, está muito mais enraizado do que a gente consegue ter consciência, no homem e na mulher, diga-se de passagem. A eterna parceria “homem chefe de família e mulher dona da casa” é ainda a máxima. Poucos homens realmente ajudam nos serviços de casa e se envolvem igualitariamente na criação dos filhos.

Como a vida da mulher é lutar e não perder a esperança, o empoderamento feminino também é assunto, ainda de forma mais tímida que no Brasil. Em agosto do ano passado, cerca de 50 mil pessoas marcharam, em Lima, contra o femicídio, na campanha latino-americana Ni Una Menos. Um feito inédito e histórico no país. Hoje, uma nova manifestação tomou as ruas do centro da cidade pelos direitos das mulheres, liderada pelo Canto da Vida, um grupo que reúne as mais importantes organizações sociais do país como Ni una Menos, Centro de la Mujer Peruana e Manuela Ramos.

Nossa luta é diária. A gente tem que perseverar. Não só nas ruas, nas redes sociais, nos movimentos organizados. Comecemos em casa. Proíba entrar lixos televisivos (em pleno 2017 ainda somos obrigados a ver um monte de tapa na cara em brigas de novela? É isto mesmo produção?). Lute contra a ditatura do azul/rosa. Converse com seu filho. Converse com sua filha. Faça seu marido usar uma camisa rosa. Compre pijamas azuis para suas filhas. Diga que sua cor preferida é a verde. Ensine seu filho a respeitar uma mulher. Faça sua filha se respeitar. Ensinem a eles que, apesar do mundo dizer A, o B também é muito legal. Combata as discriminações. Nunca deixe seus filhos falarem mal de fulano ou sicrano. Ensine empatia. Ensinem que o céu é o limite. Eles serão a sociedade de amanhã.

Feliz Dia Internacional da Mulher.

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10 Comentário

  • Reply
    eva
    08/04/2017 at 13:11

    Eu sou casada com um peruano, graças a Deus nunca tivemos problemas com agressão física extrema como foram relatadas no texto. Mais eu concordo que a maioria dos homens são machistas sim. Já tive algumas discussões sobre opiniões com meu esposo. Ele diz que as mulheres em seu país são submissas e que não se defendem contra a palavra de seu esposo. Eu convivendo com um peruano percebo que eles são de fortes personalidades. Meu esposo é muito batalhador, respeitador, e um ser humano bom. Mais outros como seus amigos são muito alcoólicos, e agridem suas esposas, alem de conviverem com três mulheres, Uma forma muito intrigante e que eu não quero jamais passar por isso. As peruanas realmente tem umas que são batalhadoras, principalmente as que vivem no campo o que precisam trabalhar pesado para ajudar na criação dos filhos, uma grande guerreira é minha sogra. ja outras a que conheço bem, sobrevivem só pelo esposo, e eles não se cuidam, em fazer exames de preventivo e outros. tem muitos filhos, sem planejamento e a maioria são analfabetas. E embora o homem peruano seja machista, as mulheres peruanas nunca lutaram um campanha forte para vencer e conquistar seus direitos como mulher…

    • Reply
      Manu Tessinari
      16/04/2017 at 11:46

      Oi Eva. Obrigada pelo seu relato. O assunto é profundo e complexo, impossível limitar a um texto de blog. Os relatos de vocês deixam vivo aqui outros pontos, outras visões, construindo assim novas formas de pensar o assunto. Obrigada de coração.

  • Reply
    Vivian Grabowski
    10/03/2017 at 16:23

    Fiquei arrepiada Manu, que texto lindo, limpo e encorajador!
    Parabéns!

  • Reply
    Sônia
    10/03/2017 at 12:19

    Olha, eu moro no Peru e trabalho. Comunidades bem carentes, mas tbm conheço um pouco dá cultura peruana, por estar aquí a um ano e estar spre buscando saber mais. Eu não vejo a mulher peruana como muito batalhadora, vejo q grande parte quer mesmo é ter filhos e ficar dentro de casa. Pior é q não se cuidam, e assim como no Brasil não vão ao posto buscar sua pílula q tbm é dada de graça. Agora pílula do dia seguinte, só Brasil dá está mãozinha p as brasileiras fazerem e acontecerem. Segundo; o maior problema no Peru é a pobreza extrema, infelizmenteaqui não tem muito emprego como.no Brasil, nas províncias ( capitais) n se investe em empresas, não existe montadora de carro aqui nem em Lima. O peru é um pais dominado, por, chineses, japoneses e americanos, e seus políticos tudo bananas, tanto q na última eleição foi para segundo turno um americano e a filha do Alberto Fujimori e claro ganhou americano p q tem interesses escusos. Claro q os dois são naturalizados. Como tem pouvo emprego e o clima na maior parte dá região é seco e terra arenosa, só planta coisa boa na selva. P q nas outras regiões muito penoso e difícil. Por estas e outras os homens são alcoólatras e algumas mulheres tbm, o álcool ameniza a fome o sofrimento, e tbm por este motivo q homens batem em mulheres, mas elas n deixam por menos não, eu mesmo já presenciei várias vzs mulheres agredindo homens e pegam pesado. Cultura é machista sim, mas maioria das mulheres n se preocupam com isso, e claro, como em todo lugar tem covardes e homens desalmados q largam seus filhos e vão viver suas vidas com outras, mas no Brasil é diferente?? E a lei aqui é pesada p pai q n dá pensão, trabalho perto.de um juiz , estes tipo pqnas causas e vi q asulheres n dão mole. No mais tenho q me informar p q só opino o q tenho certeza. Quanto as cores n vejo como uma obrigação, e sim, como tradição. Quer saber… deixa assim, pelo menos a inocência das crianças estão sendo preservadas. Melhor q ficar dizendo q tudo é permitido, tudo pode, e aí vem as cartilhas dizendo o q eles devem ser, fazer ou usar!! No mais é ir a fundo no problema, na dificuldade, na questão mais complexa. Amo o peru e seu povo humilde, sofrido, nas amoroso.

    • Reply
      Manu Tessinari
      22/03/2017 at 22:01

      Oi Sonia, obrigada por contar sua experiência no país. Como você mesma disse, o assunto é muito extenso e complexo para analisá-lo em um post. abraços.

  • Reply
    Carol May
    10/03/2017 at 05:09

    Muito bom Manu!

  • Reply
    rosana
    09/03/2017 at 06:16

    Que texto lindo! Te admiro cada dia mais. Grande beijo!

    • Reply
      Manu Tessinari
      10/03/2017 at 10:59

      Obrigada Rosana por sempre nos acompanhar com tanto carinho!

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